Nos últimos anos, as proteínas se tornaram o nutriente ‘de cabeceira’ para quem quer uma vida mais saudável e, principalmente, com mais músculos. A partir daí, começaram a ser acrescentadas em todo tipo de produto alimentício, e não param de pipocar versões “proteicas” nas prateleiras. Agora, elas chegaram até nos salgadinhos.
Neste mês, a gigante PepsiCo lançou o “Doritos Protein”, uma versão que promete fornecer 10 gramas de proteína a cada 28 gramas de produto (um pouco menos do que um pacote pequeno, que vem com cerca de 32).
A novidade não chegou no Brasil, mas já está disponível em unidades do Walmart nos Estados Unidos e traz o sabor “Sweet & Tangy BBQ”. E a empresa já prometeu que o próximo passo será soltar uma opção com 17 gramas de proteína por saquinho individual ainda este ano.
Segundo a PepsiCO, o lançamento é o primeiro passo de uma expansão estratégica da marca para a categoria de snacks proteicos.
“À medida que os consumidores buscam cada vez mais ingredientes funcionais em seus lanches e bebidas do dia a dia, a PepsiCo está alavancando seu portfólio icônico de marcas para liderar a transformação da categoria”, disse, em nota.
Mas, vale a pena aumentar a ingestão diária de proteínas com… Doritos? VEJA SAÚDE consultou especialistas para responder.
A rotulagem do Doritos tradicional indica que ele é carrega, em uma porção de 25 gramas, 120 calorias, além de 14 gramas de carboidratos, 1.3 gramas de proteínas e 2.6 gramas de gorduras saturadas. Ele tem, também, 123 miligramas de sódio, o que dá uns 5% do valor diário.
Aí começam os problemas da fórmula. A Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda que a ingestão de gorduras saturadas não ultrapasse os 10% das calorias diárias. Considerando uma dieta de 2 mil calorias, o consumo diário desse subtipo deve ser de, no máximo, 22 gramas. E aí que um reles pacotinho de Doritos já abocanha 12% dessa quantia.
Quanto ao sódio, a OMS recomenda menos de 2000 miligramas por dia (equivalente a menos de 5 gramas por dia de sal), ou pouco menos de uma colher de chá. Não dá para dizer, então, que as 123 miligramas de sódio sejam as grandes vilãs desse salgadinho.
No entanto, a questão é o combo de tudo que ele carrega. O alto teor calórico está acompanhado de baixa qualidade nutricional — no pacotinho, quase não há fibras, vitaminas ou minerais — e o resultado é um mix que sacia pouco e estimula a comer mais.
Para piorar, contam, os alimentos ultraprocessados contam, ainda, com uma série de aditivos alimentares que não são utilizadas na cozinha comum e são apontadas como prejudiciais à saúde.
No caso do Doritos, por exemplo, estão presente formulações como glutamato monossódico e inosinato dissódico, realçadores de sabor que tornam o produto “viciante“.
“Alimentos ultraprocessados são elaborados para serem hiper-palatáveis, o que em geral, faz com que sejam ricos em açúcares adicionados, gordura saturada e sódio, conferindo alta densidade energética, além dos aditivos químicos como realçadores de sabor, corantes e emulsificantes”, resume Manuela Dolisky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN).
“[Portanto], a proteína é um macronutriente essencial, mas ela não serve como um “salvo-conduto” para o consumo de ultraprocessados”, alerta.
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que 0,8 gramas de proteína por quilo de peso corporal são suficientes para suprir necessidades fisiológicas, o que equivale, por exemplo, a 180 gramas de um peito de frango em um dia para a maioria dos adultos.
De fato, as proteínas são necessárias para uma dieta equilibrada, mas a quantidade consumida pela população já está adequada. É o que aponta a Pesquisa de Orçamentos Familiares, que demonstra que, mesmo dentre os 20% mais pobres da população brasileira, apenas 3% apresentam ingestão abaixo desse nível.
Essa meta é alcançada por um refeições como o bom e velho arroz e feijão somados a uma carne que costumamos comer no almoço. “No Brasil temos uma média estimada que varia entre 1,1 e 1,6 gramas de proteína por kg de peso corporal”, explica Manuela.
Para os idosos a recomendação sobe para 1 a 1,2 gramas por quilo ao dia, com objetivo de controlar a sarcopenia. “Ainda assim, não há respaldo para recomendar altas ingestões proteicas para a população geral”, diz a nutricionista.
Por isso, suplementar proteínas é dispensável para a maioria das pessoas.
Não necessariamente, porque nem toda proteína vem acompanhada do mesmo “pacote nutricional”. Quando você consome um ovo ou uma porção de feijão, não leva só esse nutriente, mas uma combinação complexa de vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos, um conjunto difícil de reproduzir em laboratório.
“A fortificação de ultraprocessados com ingredientes que contém proteínas, como o whey protein e o soro de leite, não pode ser comparada ao consumo de fontes naturais de proteína, que apresentam interações complexas entre nutrientes, fibras e compostos bioativos”, explica a nutricionista Samanta Fabbris, pesquisadora do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec).
Por fim, vale dizer que dietas hiperproteicas, especialmente em contextos inadequados, podem levar a sobrecarga do fígado e dos rins, aumento da produção de ureia e fermentação proteica no cólon, com formação de metabólitos deletérios.
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Um levantamento recente do Idec avaliou o fenômeno dos ultraprocessados proteicos no Brasil. Para isso, os pesquisadores olharam para as fórmulas desses produtos e encontraram um bocado de furos nessa história.
Foram identificados 52 alimentos com esse tipo de apelo e, ao todo, suas embalagens somavam 65 alegações relacionadas à presença de proteína.
Só que, em 11 casos, segundo o Idec, as mensagens poderiam induzir o consumidor ao erro.
Por exemplo, em um dos produtos, não identificado pelo levantamento, a embalagem estampava a promessa de “28 gramas de proteína por pacote”.
Mas quando o instituto descobriu que cada pacote tinha a porção de 30 gramas e apenas 8.5 de proteína. Ou seja, pra atingir os 28 gramas anunciados, seria necessário consumir quase 100 gramas do produto, pouco mais de três sacos.
“Não, a presença de proteína não cancela os malefícios do excesso de açúcares, gorduras e sódio e nem da presença de aditivos como funções cosméticas (como aromatizantes, corantes, emulsificantes e edulcorantes)”, lembra Samanta.
Por isso, a nutricionista crava: “produtos ultraprocessados, com ou sem adição de proteína, devem ser evitados”.
O instituto também atesta que alimentos tradicionalmente minimamente processados passaram a ser reformulados com químicos para atender à fortificação proteica.
“A paçoca é um exemplo: originalmente feita com poucos ingredientes, pode compor uma alimentação saudável se consumida com moderação; no entanto, ao receber adição de proteína e alegações no rótulo, tende a gerar uma percepção equivocada de que seu consumo pode ser ampliado”, diz Samanta.
Para ter ideia, esta é a fórmula da famosa marca Paçoquita, em seu produto tradicional: amendoim torrado e moído, açúcar e sal.
Já uma “paçoca proteica de morango” da marca de suplementos Growth, é descrita assim: amendoim, proteína de soro do leite concentrada, sal, edulcorantes maltitol e sucralose, aromatizante, espessante goma xantana e corante artificial amaranto.
Preocupado com esse cenário, o Idec alerta para o risco de que o consumidor seja induzido a acreditar que estará fazendo uma escolha alimentar mais saudável e até seja estimulado a trocar um alimento natural por um ultraprocessado.
Mas essa não é mesmo uma boa ideia. “Os riscos incluem aumento de doenças cardiovasculares, prevalência de obesidade e inflamação sistêmica”, também alerta Manuela.
“[Quando mais proteína se faz necessária em uma dieta], a estratégia prioritária deve ser ajustar a alimentação com base em alimentos convencionais, reservando produtos enriquecidos para contextos específicos e orientados”, aconselha a presidente do CFN.
Texto original: https://saude.abril.com.br/medicina/salgadinho-proteico-vale-a-pena-apostar-nesses-produtos/